Colunistas - MIA SODRÉ

Não se leve a sério – ou como um Y.A. salvou meu mês

06 de February de 2017
Não se leve a sério – ou como um Y.A. salvou meu mês
Em dezembro, uma amiga e eu resolvemos fazer um mega desafio literário e programar todo o novo ano com leituras mensais de clássicos. Eu sempre fui a louca da literatura clássica e estava super empolgada pra isso. Porém, havia esquecido um detalhe: esses livros são amor, mas podem também dar uma bela vontade de morrer por conta de ressaca literária.
 
“Guria, como é que cê fala em ressaca literária de clássicos?” Ué, falando. Gente, façam um favor a si mesmos e deixem de lado essa mania de ser sério. O mundo já é uma coisa séria demais, tem gente morrendo todos os dias, em todos os lugares. As cidades são pré-cemitérios. Você sai de casa e não sabe se voltará vivo ou com algum membro faltando. Se formos realmente levar tudo a sério, entraremos em depressão. Você quer isso? Olha, eu não. Portanto, faça um favor a si mesmo e pare de levar a sério ao menos as coisas que deveriam nos trazer prazer, como a literatura, por exemplo.
 
Clássico rima com chato e mesmo eu, que devoro esse tipo de livro desde que tinha 9 anos de idade, preciso admitir que há obras que são maravilhosas, mas dão um sono danado e uma trabalheira dos diabos para serem lidas. E não há nada de errado com isso porque, generalizando bastante, as obras clássicas são todas bem antigas, dotadas de uma linguagem já datada, que não mais cabe hoje e que nos exige um pouco mais de atenção e paciência. O que não significa, de forma alguma, que sejam ruins: pelo contrário, as histórias costumam ser maravilhosas, envolventes e cheias de temáticas fortes que podem até mudar as nossas vidas. Porém, se lermos apenas isso teremos, em algum momento, vontade de largar tudo pra o alto e abandonar o hábito da leitura.
 
Mas a questão é que: em dezembro comecei esse projeto de leitura de clássicos e, já no mesmo mês, pirei loucamente porque aquele seria o mês de Kafka e, bem... Digamos que Kafka era uma alminha atormentada e todo aquele tormento se transformou em mim acordada às 4h da manhã, encarando o teto e com lagriminhas rolando ao lado da face enquanto o namorado me olhava, atônito, e perguntava se tudo estava bem.
 
Estava. Claro que tudo estava bem. O que aconteceu foi apenas o efeito de mergulhar num clássico. “Ah, mas outros livros não te fizeram chorar já? E eles não eram clássicos, eram?” Já aconteceu, sim, de eu chorar com algumas leituras. Mas a diferença entre um romance da Nora Roberts e Carta ao Pai, do Kafka, é que o primeiro te deixa surpreso com algum evento relacionado ao coração partido de uma protagonista e o segundo te deixa arrasado por mexer em feridas profundíssimas que você nem sabia que ainda existiam. E essa sensação não dura apenas uma noite, mas dias, semanas.
 
E é nesse momento que você precisa ler um Y.A.*
Ou um novelão da Danielle Steel, ou alguma ficção de autoajuda do Paulo Coelho: não importa. Mas você vai precisar ler algo que não te aflija tanto. Quer dizer, sejamos sinceros: eu não sei seu ritmo de leitura, não posso afirmar em qual momento suas sinapses vão dizer bye-bye e tudo o que você vai querer é dar umas risadas com uma história legal, mas que não lhe traumatize. O que eu sei é que assim que terminei dois livros do Kafka em menos de 15 dias, precisei ir à biblioteca e pegar o primeiro livro Y.A. que encontrasse.
 
Que, no caso, foi o primeiro volume da série House of Night, das P.C. e Kristin Cast – Marcada. Pensei que a leitura seria apenas uma coisa bem abestada, repleta de clichês sobrenaturais para adolescentes de 14 anos. E, na verdade, foi. Mas não somente isso. Com uma escrita super fluída, numa linguagem acessível a todas as idades e contando com um enredo divertidíssimo, mergulhei nessa série gigantesca de 12 livros (DOZE!) como se não houvesse uma pilha de leitura enorme ao lado da minha cama, me encarando todas as noites. E foi a melhor coisa que eu poderia ter feito. Se eu tivesse insistido nos clássicos, sem dar uma pausa sequer para ler algo que não fosse tão cercado de profundidade e críticas maravilhosas, teria perdido algo importantíssimo: o hábito de ler por diversão, de ler porque sim, de ler não porque o livro está em alguma lista – feita por mim ou por outro alguém – dos melhores já escritos, mas sim porque ele tinha uma capa bonita e falava sobre vampiros e wicca.
 
E isso me fez perceber algo que eu havia esquecido há algum tempo: não é porque a gente cresce que precisa vestir a máscara da seriedade adulta pra tudo e deixar de lado aquilo que até parece meio idiota, mas nos faz bem. Como livros do John Green ou de vampiros adolescentes ou até mesmo aquele filme de fim de tarde em que a mocinha, de repente, se descobre com 30 anos e sem saber como lidar, pois até ontem tinha apenas 13.
 
A gente pode ter 16, 23 ou 42. O que não pode é ser pedante.
 
 
*Y.A. – abreviação de Young Adult, ou seja, livros destinados ao público jovem adulto.
Foto do(a) MIA SODRÉ

MIA SODRÉ

Aprendiz de jornalista na PUCRS, tia da biblioteca, leitora compulsiva e metida a escritora nas horas vagas.

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